sábado, 12 de junho de 2010

O futebol permite momentos emocionantes, comparados aquelas cenas inesquecíveis proporcionadas pelos cinema. O gol de Zico contra a Argentina na Copa de 82; Pelé e Maradona trocando passes de cabeça num programa de TV; o gol de Carlos Alberto em 70 e tantos outros.

Mal começou, a Copa do Mundo da África já nos presenteou com frames fantásticos. A alegria dos africanos, o gol de Gerrard contra os EUA e o melhor de todos: Tatu, da Ilha da Fantasia, treinando a Argentina. Me emocionei ao relembrar as tardes de Sessão Aventura. Grande, ou melhor, Pequeno-Grande Tatu.

Felisberto Bulcão




quinta-feira, 10 de junho de 2010

Camisas 10

Considerada uma das mais sólidas do futebol atual e apesar de muito festejada na Copa 2010 a defesa não representa a tradição da Seleção Brasileira. Ainda que alguns laterais tenham figurado na história entre os melhores do mundo, a fragilidade da zaga do Brasil sempre foi notável. Não que nosso futebol não crie bons zagueiros, mas sua principal commodity é a ‘Camisa 10’.


A vocação criativa do brasileiro é invejada no mundo todo. O talento e a técnica em favor do desequilíbrio tático dos esquemas. O meia-armador, o meia-atacante, o volante-ofensivo, o ala-avançado, o ponta-de-lança. Jogadores habilidosos e imprevisíveis programados para furar as defesas adversárias. Não à toa, os jogadores brasileiros que mais se destacaram no futebol mundial atuavam nessa função, desde Zizinho, ídolo de Pelé, aos dois representantes brasileiros na Copa da África. Kaká pelo Brasil. Deco por Portugal.

As maiores Seleções do Brasil tiveram mais de um ‘Camisa 10’ no time. Quase sempre foi assim. Garrincha, Didi, Pelé, Gerson, Rivellino, Zico, Sócrates, Rivaldo, Ronaldinho. Em dupla, trio, quadra, destruíram oponentes. E excelentes ‘Camisas 10’ ficaram de fora dessa Copa como Ronaldinho, Alex, Juninho, Diego, Ganso, Hernanes. Talvez não tenham o perfil pré-requisito aos convocados por Dunga. Talvez dispensável para um “Camisa 10”. Tranqüilo, elegante, quase invisível, mas imprescindível para a maioria dos esquemas. Holofotes para os verdadeiros pop stars, os atacantes.

Apesar de ser disputado pelas maiores forças do futebol moderno o atacante brasileiro é uma falácia. Centroavante é uma raça em extinção em nosso futebol e a safra de bons atacantes anda definhando cada dia mais. Parece que a badalação em torno da artilharia e a mítica relação do futebol brasileiro com o gol ofuscaram nosso maior produto nacional: o “Camisa 10”. No entanto, a exportação de excelentes goleiros, zagueiros e volantes para os clubes mais poderosos do mundo deixam o Brasil muito confortável quando o assunto é o sistema defensivo.

Então fica fácil, porque historicamente o sistema defensivo sempre foi o calcanhar de Aquiles da Seleção Brasileira e agora temos peças de sobra com qualidade pra formar algumas Seleções distintas, se necessário fosse. Além da insistente tradição de produzir bons meia-atacantes criativos e habilidosos. A infinita capacidade de produzir arte no futebol. Ao invés disso, vamos sofrer muito nessa Copa porque a CBF e Dunga assim quiseram.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Seleção Natural

Nada chama mais atenção no mundo. Nada. Nem Olimpíadas, nem terremoto, nem Eleições. Nem uma guerra esvaziaria ruas como em dias de jogos da Copa do Mundo. E até mesmo guerras e conflitos são esquecidos ou postos de lado para a convocação da Seleção Nacional. A seleção dos melhores futebolistas de cada país.

Independentemente de qualquer coisa. De raça, de crença, de ideologia. Do que queira Tia Chica ou Garrastazu Médici. É a seleção dos melhores do mundo em suas posições. Está acima de Deus e dos homens. É a seleção dos mais bem adaptados ao meio. É a seleção natural, de Charles Darwin. Com a convocação da Seleção Brasileira, Carlos Verri, o Dunga, contesta a Seleção natural Brasileira e corta o laço evolutivo com a essência do escrete canarinho.

Dunga desprezou o futebol brasileiro que é valorizado em todo o mundo e usou critérios mais divinos em sua Convocação. Criou sua seleção à sua própria imagem e semelhança. Assim, essa não é a Seleção natural Brasileira. Obviamente não é culpa do Dunga. A engrenagem precisa de um bode. De um funcionário padrão. “Sou funcionário da CBF”, disse ele na coletiva do dia 11 de Maio. Como volante, sempre foi limitadinho. Não vai decepcionar como técnico. Medíocre.

O futebol brasileiro que gostaríamos de ver na Seleção vive quase todo na Europa. Em 2008, dos 1.176 produtos de exportação, 762 desembarcaram por lá. Mil atletas em média são transferidos para o exterior todos os anos, desde 2003. De lá para o final de 2010, pelo menos 8 mil jogadores brasileiros terão sido despejados no mercado internacional da bola. Esses números são da própria CBF. Achar 23 craques nesse bolo é mais fácil do que 23 ‘dungas’.

Difícil mesmo é fazer alguém que nunca foi treinador montar uma equipe de craques brasileiros pra jogar com a criatividade e eficiência de um Barcelona, por exemplo. Não é que seja pra reinventar a roda e montar um novo Carrossel Holandês ou reeditar as Seleções de 70 ou 82. O que seria bastante razoável. Mas, é apenas fazer uso do talento natural do jogador brasileiro que não se encontra em nenhuma outra equipe do mundo.

Pra encontrar o futebol perdido da Seleção tupiniquim, só apelando para os jogos dos clubes com brasileiros espalhados no mundo transmitidos pela TV. Os torcedores mais moços nem conhecem o ritual de assistir a um bom jogo de futebol num estádio. Um dia torce pra defesa da Inter de Milão e Benfica. No outro, pro meio campo do Fenerbahçe e Milan. No fim de semana, pra ala do Barcelona. Com alguma sorte dá pra torcer pro ataque do Santos.

Paradoxalmente, o futebol bonito e criativo, o futebol arte que chama atenção e valoriza o nosso futebol, que separa o futebol do Brasil do futebol pasteurizado e burocrático de outras praças, o futebol que enche de orgulho e desperta a paixão do povo, o futebol que aproximam torcidas rivais, o futebol que atrai quem não sabe absolutamente nada de futebol, não é o futebol escolhido pela gerência da Confederação Brasileira.

Se o futebol da Seleção dá pro gasto, os negócios da CBF dão muito mais. A receita anual de mais de 200 milhões de Reais só vai crescer até a Copa do Mundo de 2014, ano do centenário da Seleção Brasileira. 1 bilhão de Reais. É um negócio bilionário que poderia ser tratado de modo diferente. E porque somos o melhor futebol do mundo, poderíamos fazer uma coisa muito mais interessante do que esse feijão com arroz que nos colocam goela abaixo.

Os jogadores e a Comissão Técnica da Seleção Brasileira de Futebol não precisam necessariamente ser os melhores do mundo em suas posições. Mas formam a seleção dos mais bem adaptados ao meio do Futebol do Brasil.